
É assim que o recordo, todo no ar, pernas quase invertebradas e mãos magnéticas. Massacres, autênticos atentados ao Benfica à Benfica coincidiram com a passagem do melhor guarda-redes de todos os tempos do nosso clube. O Benfica era uma sombra de si mesmo e numa defesa composta por centrais como Bermudez e Paulo Madeira a resistência encarnada era Michel Preud'homme. Qual John Connor batalhava numa luta desigual frente ao melhor ponta de lança do futebol português de sempre (Jardel) no auge das maiores tramóias de corrupção em Portugal. O próprio Benfica estava em modo auto-destrutivo com treinadores e presidentes que quase mataram o Benfica, mas Michel esteve sempre lá, sempre para nosso orgulho, para vermos os nossos rivais admitirem desarmados que o melhor guarda-redes era o do Benfica e que jogar com o Benfica mais fragilizado de sempre era sempre difícil porque bater Preud'homme era um feito. Lembro-me de expressões como "São Preud'homme" tais eram os milagres que ele fazia para salvar o Benfica. E mesmo quando a bola entrava (foram muitas vezes infelizmente) ninguém ousava culpar Preud'homme tal era a margem de manobra que ele tinha depois de tudo o que fizeram de águia ao peito. Ainda hoje sinto um enorme orgulho de ter visto jogar o melhor guarda-redes de todos os tempos do Benfica e de ter sofrido com ele tantos e tantos jogos. O Benfica era naquele tempo Preud'homme na baliza e João Pinto no ataque, o resto são memórias recalcadas que prefiro nem sequer acordar. Por estes anos longos em que Preud'homme foi expoente máximo do Benfica que eu digo que ser benfiquista é sofrer, mas com classe, sofrer todo no ar depois de defender três recargas de jogadores isolados, sofrer ainda a raspar com os dedos na bola, cair de pé e sair debaixo de lágrimas e aplausos. Acho que os nossos rivais respeitam muito isso em nós benfiquistas, não somos apenas memórias, somos um presente de resistência que apesar de tudo estamos todos os anos nos candidatos ao título, como se tivessemos tanto favoritismo como os demais. Somos os eternos campeões da pré-época porque somos os que têm mais fé, somos os que todos os anos vão entrar para ganhar todas as competições, somos os que têm sempre o melhor plantel, mesmo que os outros tenham melhor equipa, somos sempre uma facção a ter em conta nesta batalha. Somos a resistência maior do futebol português, somos os heróis que lutam contra "a máquina", contra a razão, contra a táctica, contra a ciência... Somos a estúpida emoção, a que perde sempre, a que joga à Carlos Martins, a que só ataca e que tem na baliza o melhor guarda-redes do mundo para heroicamente todo no ar defender o impossível e nos salvar da irracionalidade do nosso futebol.
Mas nos dias de hoje em que temos mais equipa do que no tempo de Preud'homme carecemos de um herói na nossa baliza. Três mortais lutam pelo trono que nenhum consegue ocupar, permanecendo um eterno empate entre três. Se Quim foi o que chegou a ser rei por uns tempos, acabou por ele próprio (com ajuda de alguns treinadores) abdicar da sua condição. Júlio César será o senhor que se segue? O tempo dirá, mas algo nele é à Preud'homme, não sei se serão as pernas "bambas" quando se atira, se é a sua tentativa de agarrar em detrimento de socar, ou se é o facto de parecer pequeno e ágil quando tem mais de 1,90m... Resta-nos sonhar que um digno sucessor de Preud'homme venha assumir o trono e liderar a resistência, porque um guarda-redes é tudo isso, o jogador menos racional e tacticamente mais desconsiderado de toda a equipa, aquele que não entra no 4-4-2, no 4-3-3 ou no 3-5-2. O guarda-redes é o adepto que voa e defende o seu clube, todo no ar mandando o remate ao ângulo da razão para canto.
Mas nos dias de hoje em que temos mais equipa do que no tempo de Preud'homme carecemos de um herói na nossa baliza. Três mortais lutam pelo trono que nenhum consegue ocupar, permanecendo um eterno empate entre três. Se Quim foi o que chegou a ser rei por uns tempos, acabou por ele próprio (com ajuda de alguns treinadores) abdicar da sua condição. Júlio César será o senhor que se segue? O tempo dirá, mas algo nele é à Preud'homme, não sei se serão as pernas "bambas" quando se atira, se é a sua tentativa de agarrar em detrimento de socar, ou se é o facto de parecer pequeno e ágil quando tem mais de 1,90m... Resta-nos sonhar que um digno sucessor de Preud'homme venha assumir o trono e liderar a resistência, porque um guarda-redes é tudo isso, o jogador menos racional e tacticamente mais desconsiderado de toda a equipa, aquele que não entra no 4-4-2, no 4-3-3 ou no 3-5-2. O guarda-redes é o adepto que voa e defende o seu clube, todo no ar mandando o remate ao ângulo da razão para canto.



